3 de dezembro de 2016

Cut


E se eu te mostrasse o meu lado negro você ainda me seguraria nessa noite?
E se eu abrisse o meu coração pra você e mostrasse o meu lado fraco... O que você faria?
- Pink Floyd

6 de novembro de 2016

Ela (Resposta Part II) VIII

Sei que demorei um pouco pra escrever essa segunda parte, mas não o fiz antes por N razões, depois dos últimos acontecimentos e "fatores" acredito que esteja pronta e essa seja a melhor forma de (me) fazer entender. Vocês leram aqui, relatos e verão muitas semelhanças no "hoje" com muitas coisas que há muito, já são "passado". O que é perfeitamente normal quando falamos sobre sentimentos, quando relatamos emoções, quando expressamos as avalanches e catástrofes que são os relacionamentos amorosos. Afinal, não são meras coincidências ou repetições, amor é amor e sempre que uma pessoa esta enfeitiçada, tomada, possuída por essa sensação, a história se repete. Umas permanecem, outras terminam, outras são interrompidas pelo destino, outras acabam terminando antes mesmo de começar. E a única certeza que se tem, é de que até que aconteça de novo, aquele amor será único.

A questão é “se é amor, como pode acabar?”... Dizem que quando é amor é pra sempre, que quando é amor é diferente, que só se ama uma vez. E daí vão nascendo inúmeras metáforas e parábolas e contos e histórias e infinitas descrições de que a porra do amor é um sentimento que nunca será substituído, de que nunca será uma sensação que se repetira, de que quando acontecer você imediatamente saberá que é o tal “grande amor da sua vida”. E ai... Surgem na contrapartida, os pessimistas, os amargurados, os infelizes, os invejosos, os mal amados. Aqueles que aparecem sempre com um “coringa” de outro naipe pra foder com a sua “canastra” limpinha.  “Amor não existe. É só sexo! Dá pra amar uma pessoa e só querer trepar com outra. Pra que se prender? Ele(a) não te ama. Quem vai contar? Abre os olhos.” Pois é... Eu bem sei como é isso. E pra variar, vou à contra mão de tudo que dizem e afirmo que o amor tem mais formas do que a quantidade de vezes que podemos ver desenhos nas nuvens. Que o amor pode acontecer na vida de uma única pessoa mais vezes do que ela é capaz de contar os pingos de chuva. E que não importa o que dizem o que pesquisem o que escrevam, eu vou sempre acreditar no que eu estou sentindo.

Ele entrou na minha vida de uma forma muito peculiar. Acredito que inicialmente não havia um plano B. E que esbarrar em mim foi de duas uma “ou obra do destino ou mero acaso”. Essa é uma questão que talvez nem que queiramos, iremos descobrir. Mas isso não importa o que realmente vale enfatizar (ao menos pra mim) é que ninguém fica sem querer ficar ou parte sem querer partir. Então ficamos, ficamos próximos, viramos amigos, e a intimidade foi nos dando espaço. Fomos nos espalhando um na vida do outro, juntando os planos e logo, estávamos consolidados as juras e promessas que acabam se profetizando em meio a conversas bobas, em intervalos de filmes onde aquela cena fictícia nos convence de que fora da tela também é possível, ou através das dezenas de músicas enviadas que cantaram o que sentíamos como se fossem a nova forma de enviar cartas.

Eu levei um tempo pra me permitir, pra abrir mão dos meus medos, demorei pra acreditar que porra... “desta vez era amor”. Eu já havia passado perto desse tal de amor algumas vezes, tudo em mim sempre foi tão intenso, tão latente, que sinceramente, não acreditava que eu poderia sentir algo “muito diferente” do que já havia sentindo das outras vezes. Na verdade o meu temor era deixar que esse “tal amor” entrasse e me machucasse novamente. Mas ele foi astuto, jeitoso e muito convincente, e com isso, lá estava eu, acreditando mais uma vez nas histórias que batia no peito pra dizer que só aconteciam no cinema ou nos meus livros preferidos de cabeceira (é eu ainda sou dessas que empilha livros já lidos, no criado mudo). Lá estava eu, dando brechas, abrindo as janelas e tirando o pó das prateleiras do meu coração. E quando ele se mudou definitivamente pra dentro do meu peito, todo aquele peso que eu carregava foi desaparecendo.

Com ele, o amor parecia leve. As manhãs não eram mais pesarosas, minhas tardes já não passavam mais arrastadas, e a noite, minha parte favorita, era a que eu queria que passasse mais apressada, comecei a sentir uma necessitada absurda de ser acordada por ele "me sentia meio Bela Adormecida". Tudo virou do avesso, mudou de ritmo, me perdi nas datas agendadas a marca texto e discutia constantemente com o tempo. Todas as minhas prioridades deixaram de ser importantes. E fiz com que minha rotina se encaixasse na dele. Era tudo tão perfeitamente desorganizado que todo nosso roteiro errado, dava muito certo. Comecei a deixar os fantasmas de lado, passei a sorrir para o sol (o que é coisa muito rara) e dei inicio aos novos projetos. E mesmo sabendo que o terreno era arenoso, estávamos alicerçando nosso castelo. Piamente acreditei que nada, nada poderia ruir meu lar. Afinal, era nos braços dele que eu me sentia em casa. Fosse onde fosse, estivéssemos onde estivéssemos nada mais poderia me assustar, com ele eu não tinha mais medo de nada. Éramos nós contra todos. E assim foi por muito tempo, tempo o suficiente pra eu entender que o amor não exige modificações, que amor não pode ser construído em cima de promessas, que quando é amor, ele simplesmente é.

O amor não requer abdicações.
O amor não enjoa.
 O amor não muda as pessoas.
O amor não é opcional.
O amor lhe faz agir no impulso.
O amor te arranca do chão. 
O amor não se esconde.
O amor não machuca.

E foi então que me dei conta de que entre as oito principais regras eu estava violando a mais importante e não mencionada. Não há regras no amor. Então percebi que eu estava agarrada as promessas, as juras, os sonhos, aos clichês e metáforas. Criando sozinha, bases nas minhas próprias convicções e perspectivas. A minha cede de cura, o meu desespero pelo estancar das chagas passadas, o meu medo assustador de sentir meu coração outra vez ser partido, fez com que eu me apegasse a cada promessa de “felizes para sempre” como quem descobre a cura do câncer. Sem me dar conta de que assim como nos contos de fada, tudo que havia sido dito, prometido, jurado, vinha sendo decretado somente pela minha necessidade de acreditar. E de repente me vi vivendo num livro. E eu estava chegando ao capitulo final onde surpreendentemente a historia da uma puta reviravolta inesperada. O herói assassina o amante da esposa, a mocinha abandona o coral e o bom moço prometido e monta na harley de um desajustado sumindo na estrada. A carola é pega trepando com o encanador, e o velho da casa assombrada no final da rua aparece casado com uma garota que jurariam ser a bisneta dele. Todos esses pontos abririam “dezenas de pontos de vista”, dariam margens a centenas de especulações. Eu, ele, o ex herói, a nova ovelha negra, a recém vadia, o velho babaca... Quem pode apontar rotular, acusar? Quem pode, além de cada um de nós, saber como chegamos até cada ponto de nossas vidas? Quem, senão aquele que passou, sentiu e viveu, pode avalia e nomear com propriedade se tudo foi ou não motivado por amor? Somente nós, os protagonistas de nossas vidas, os roteiristas de nossas histórias, os donos de nossas emoções, poderemos classificar, julgar e decidir com propriedade o que é amor.

E o que posso afirmar com certeza é de que foi amor. Foi amor no primeiro roçar de lábios. Foi amor na primeira manhã mal humorada, foi amor na primeira explosão de fúria. Foi amor quando cortei a conversa e cantei do outro lado da linha. Foi amor na primeira dor de despedida ainda que a volta fosse breve, foi amor no permanecer em silencio enquanto a raiva emudecia a fala. Foi amor no romper em soluços com a dor da verdade, foi amor na rouquidão da garganta depois dos berros enfurecidos de ciúmes. Foi amor ao atirar os copos e cobrir o assoalho de cacos. Foi amor enquanto eu jogava suas roupas lá de cima, no capo do carro. Foi amor quando me deitei sozinha, vestindo sua camisa e assim tentando te sentir mais perto. Foi amor com juras rompidas, promessas quebradas... Será amor, quando esta dor passar, e a ferida fechar e eu sorrir de leve ao olhar a cicatriz deixada. Pra sempre será amor, ainda que eu leve uma vida, colando os pedaços do meu coração que se estraçalharam no chão do quarto mais uma vez, quando atirei contra a parede, seu porta retrato. Porque quando é amor é, e mesmo que termine. Nem com os erros cometidos, nem com os pecados apontados, nem com os corações partidos, se finda.
Por. Bell.B 

15 de outubro de 2016

Ela (A Carta) VII


Durante o dia, os afazeres, os compromissos, as visitas constantes. Alguns fatores a fizeram mudar a rotina e se tinha algo que a deixava completamente “transtornada” eram mudanças que exigissem mais do seu físico. Mexer em seu relógio biológico era tão perigoso quanto atirar pedras numa colmeia. Mas uma coisa que essa garota tinha de “incrível” era a capacidade de “sacrifício”. Se tinha algo que literalmente a fazia esquecer-se das suas overdoses de sono e seu total desprezo pelas primeiras horas do dia, era a família. Em resumo da opera, sua construção de cartas estava completamente no chão. E toda aquela sua ânsia de controle sobre tudo, toda aquela postura firme e convincente de “segurança” estava a um fio de ruir assim como seu castelo. Parece que de tanto dizer “meu lado certo é o errado”, assim se fez.

Fora todos os seus problemas (algo que não era especificamente só com ela, afinal, quem de nós não tem problemas?) ainda havia aquela situação indigesta. E voltamos a tão cansada e sofrida tecla... O que foi dito, o que não foi dito, o que talvez nunca seja. As duvidas, as certezas, as respostas, as perguntas. Tudo parece caminhar em circulo. E você fica ali, no meio de tudo esperando que ora ou outra, a coragem vença e resolva aquele emaranhado de inquietações que lhe causam tanto medo. Não é novidade pra ninguém que quando ela adota o silencio, a porra ficou seria. Logo ela, que fala pelos cotovelos, que eleva o tom por qualquer bobagem, que desce do salto e atira copos, talheres, que argumenta de peito cheio, quando se cala, de duas uma. Ou as palavras sumiram pelo choque, ou esta literalmente ferida por dentro. E ele a feriu, mas ela sempre arrumava uma maneira de se reinventar, de se restaurar, de lidar com a dor que vez por outra vinha forte e que bizarramente, ela a fazia aliviar buscando por ele. Entre os livros, sapiando os canais da TV, ouvindo repetidamente as canções que descaradamente “roubaram” pra eles, relendo suas cartas, ouvindo uma, duas, três, quatro e muitas vezes até dormir, os áudios dos seus melhores aos piores momentos, que salvou ironicamente numa pasta, nomeada “delete”. Sadismo? Masoquismo? A essa altura, o único nome que ela conseguia dar a essa “tortura” era “sinto muito, sinto mesmo”.

E de sentir ela entendia, ao menos do sentir dela. Por mais que se calasse, que se segurasse tudo que ela deixava de dizer, aquilo gritava constantemente em seu peito. Por mais que ela tentasse disfarçar, continuar com sua vida, vez ou outra suas emoções passavam pela apertada aresta e se faziam enxergar. Fosse no marejar dos olhos no meio de uma conversa casual num churrasco de domingo, ou sozinha, pega repentinamente no banho ou mesmo passando um café no meio da madrugada sozinha na cozinha. As coisas com ela não tinham aviso, não havia alertas ou toques de recolher. E quando acontecia, ela sequer era capaz de conter. A avalanche de raiva, a inundação do choro ou mesmo a euforia do riso, simplesmente rompiam. E com isso ela estava acostumada, fosse o que fosse, vinha e pronto. Ela só precisava de um tempo, daquele tempo (maldito tempo). Dela com ela. Onde nada nem ninguém poderia ou conseguiria salva-la. Ela havia adotado essa técnica como rota de fuga. Como se em seu coração houvesse uma passagem secreta (ou um quarto do pânico, já que quando ela entrava naquela porra de bolha, ou casulo ou sei lá que caralho a quatro, não saia por nada até se sentir segura).

Noite dessas, ela se levantou (tem se levantado muito) e notou que havia um envelope debaixo da porta. Cerrou o cenho, encolheu as pálpebras e se aproximou. Assim que o apanhou sentiu ressecar a garganta, percebeu que não havia remetente, sequer um carimbo que pudesse lhe dar pistas de quem o teria colocado ali. Mas seu coração ou seu sexto sentindo, seu dom místico (fada/bruxa como dizem por ai) soou o alarme. Respirou algumas vezes, tirou os fones e alinhou o envelope sobre a mesa. As mãos espalmaram a superfície gelada e o ar começou a faltar antes mesmo dela começar a passar os olhos no que estava escrito ali, se é que tinha algo escrito. Milhões de coisas passaram pela sua cabeça, agora a certeza era tão segura que dezenas de perguntas, respostas, novas, antigas, começara, a sufocar sua garganta e pesar em sua cabeça. Ela abriu o envelope e assim que sua retina passou nas primeiras palavras ela sentiu o frio percorrer-lhe a espinha. 

Rapidamente leu, depois leu mais uma, duas, e releu, e espremeu as palavras, e se alimentou das frases, e consumiu as emoções que vieram cunhadas nas palavras dele, e sentiu despertar a raiva que lutou pra adormecer, e seu rosto ardia respondendo a emoção que não podia conter. E seus olhos inundaram, e seus sentimentos acordaram como se nunca tivessem corrido o risco de morrer. Estaria ele tentando pela ultima vez mostrar a ela, que embora estivesse há 179 dias fora de casa, ela não havia em momento algum, deixado de estar com ela? Estaria ele, desta vez disposto há atropelar esses meses e provar pra ela, que não há lugar que ele queira estar, senão com ela? Estariam eles, dispostos a esquecer, a sentar e esclarecer todas as duvidas pra poderem deixar essas 4.296 horas pra trás e recomeçarem o resto dos seus dias juntos?

Ela apanhou aquela carta, colocou-a sobre a cama e mais uma vez leu, iria responder, desta vez diretamente, sem sombras, sem fantasmas, como sempre o fez. Do jeito dela, franco, sincero, direto. Na lata, como ela gosta dizer.
Por. Bell.B

5 de outubro de 2016

Ela (Escolha) VI

Fui atrás dela, não do jeito que ela esperava ou talvez imaginasse, mas fui. Vez por outra dava um jeito de chamar a atenção, de me fazer enxergar, eu tentei. Juro que fiz tudo que acredito ter sido possível pra que ela entendesse meu arrependimento, minha necessidade de estar com ela, à falta do caralho que ela me fazia/faz. Repito, cantei, escrevi cartas, deixei rastros, até casualmente puxava assunto sobre algo que fizesse a conversa rumar até ela. Tentar a ponte, provocar a curiosidade nela de quem sabe “querer saber o porquê de eu estar ainda falando sobre ela ou querendo saber sobre”. Maldita! Em momento algum ela pareceu estar a par de tudo, embora eu aposte no “descaso estratégico” dela. Ela quando quer se faz mais fria que Ridge. E puta que pariu, como isso feri. Ficar ali, na expectativa se consegui ou não tocá-la é pior que esperar na fila da morte. Ao menos nesta fila, se tem certeza, já na dela... Ual!

Hoje me peguei pensando no dia em que ela “autoritariamente” me pediu pra ler a carta... Tentei hesitar, argumentar, mas ela sabe bem como comandar a cena quando quer. Rapidamente passei os olhos em cada palavra antes de subir o tom. Pensei por alguns segundos que eu não conseguiria. Acho que na altura do campeonato, estava já, um tanto descrente daquilo. Mas mesmo assim prossegui. É claro que eu poderia afirmar que o fiz por gentileza, ou pra não ir à contramão do que havia riscado ali anteriormente, mas quando orei a primeira frase, meu coração acelerou. Firme, prossegui li cada palavra como se aquele dia fosse o ultimo, e quando terminei, o silencio dela embora curto, foi ensurdecedor. Confesso que naquele momento não consegui prever sua reação. E isso foi ainda mais assustador. Eu a conheço tão bem, talvez mais que a mim mesmo. Ela balbuciou alguma coisa, mas eu estava tenso demais pra retrucar ou mesmo iniciar um assunto que pudesse puxar uma conversa, já era tarde e havia me esquecido de alguns de seus compromissos. A ligação se encerrou e por um momento pensei que ela tivesse desligado, eu tentei retornar, mas por cair na caixa desisti depois da primeira tentativa, foi melhor assim. Depois nos falamos por mensagens e ela explicou que a ligação caiu e que também tentou retornar. Depois que li a mensagem dela acabei rindo. Engraçado como a insistência vai diminuindo quando determinados fatores se instalam no caminho. Se fossem alguns meses atrás, passaríamos a noite inteira tentando nos comunicar. Pior... Sem duvida quando conseguíssemos ela surtaria. Entre todas as coisas que a tiravam do sério, uma delas era “ouvir o terceiro toque da chamada”. Como isso a irritava. O mundo todo poderia ligar pra ela, e certamente ela caminharia até o aparelho com a maior calma, fossem dois, três, vinte toques. Agora com ela não, AI DE VOCÊ, NÃO ATENDER NO SEGUNDO. Puta que pariu, o discurso era longo.

Por fim, depois disso não mais liguei, ela também não retornou. Tudo ficou subentendido ou enterrado num canto onde não sei bem ao certo como definir. Quando o assunto é a “sua mente” o acesso é além de um puta labirinto, restrito. Nunca se saberá com exatidão o que de fato ela esta pensando ou se esta. E essa é uma das coisas nela que me enlouquecem. Isso é o que fode comigo. Sentir e saber sobre o que ela sente e não conseguir premeditar suas reações. Engana-se quem pensa estar sempre a um passo a sua frente. Ela insiste em dizer que é um livro aberto, que não tem segredos, que responde, mostra e esclarece qualquer duvida, mas cada vez que ela me responde uma inquietação, faz brotar um novo mistério. Eu estou cansado. Sinceramente?! Estou farto! Eu já vivi pra caralho, já superei situações das quais nem imaginaria que seria capaz de suportar. Eu sei que não estou preparado pra te esquecer, sei também que isso muito provavelmente jamais irá acontecer. Certas pessoas passam por nós e deixam rastros que nem mesmo o tempo será capaz de apagar. Mas assim como não estou pronto pra me curar de você, também não estou disposto a desfalecer por esse sentimento pelo qual acreditava que me faria viver.

Eu também achava que seria impossível largar o cigarro, e veja só... Fui diminuindo, depois optei por esses adesivos e comecei a usar o eletrônico. Logo, as crises de abstinência foram diminuindo, meu corpo desintoxicando e minha mente compreendendo que eu não precisava mais daquilo. Força de vontade, decisão, escolha! Eu escolhi parar, decidi que não poderia continuar refém de algo tão banal e destrutivo. Não se ofenda, em momento algum estou lhe comparando aos malefícios e degradações que o cigarro causa ao organismo, estou apenas esclarecendo (você adora essa palavra, “esclarecendo” não?! rs) minha postura em relação as minhas decisões. Acho que você deveria fazer o mesmo, esse fode ou sai de cima não é pra mim. E por mais que eu queira “ser pra você”, não posso entrar na tempestade, tira-la da chuva, e trazê-la pra casa, enquanto você continuar a ser para-raios.

Por falar em raios, dia desses os trovões assustavam lá fora, eu fiquei deitado na cama pensando em quantos temporais foram nossa trilha sonora, em quantos cafés e cigarros fumamos aqui dentro deixando os cômodos impregnados do cheiro do tabaco e do nosso suor. Repuxei o nariz, fiz uma careta, imaginei você fazendo varias, se ainda estivesse comigo, me satirizando por agora implicar com isso. Senti uma pontinha de vontade de tragar, de leve, longe, nada enlouquecedor. Sorri outra vez, olhando aquele vazio do meu quarto, cheio de ti por todos os lados. Murmurei um foda-se pra vontade de fumar e me rendi ao desejo de me dar varias overdoses de você e continuei ali. Te vi passar pelo pé da cama enquanto saia do banheiro enrolada na toalha e com a outra esfregava no cabelo. Meu quarto foi invadido pelo vapor do chuveiro, e me lembro de vê-la soltar a toalha e deitar em cima de mim. O cheiro do teu cabelo molhado, a temperatura quente do teu corpo devido ao banho escaldante que sei que ama tomar e as ruguinhas nas pontas dos teus dedos deslizando em meu peito de tanto demorar debaixo d’água, são as coisas que mais gosto de lembrar. Ahh menina se soubesses, se conseguisse compreender que a falta que me faz é maior do que minha coragem de te resgatar dessa tempestade, certamente sairia dessa chuva e voltaria pra casa.

Eu sei que não posso mudar o que já foi feito, mas uma vez você me disse que podemos acreditar no impossível e assim, ele será possível. Eu acredito mas não posso acreditar nele, sozinho. Escolha acreditar comigo.
                                                                       Por. Bell.B

21 de setembro de 2016

Ela (Recaída) V

Tudo continuo a seguir, afinal, como diz Shakespeare “a vida não para pra você juntar os pedaços”. Sempre de longe, por intermédios de outra pessoa eu dava um jeito de saber dela. Tomei algumas medidas radicais, mas isso não me fez sofrer menos ou me sentir em paz. Era sempre angustiante querer alcançar, saber dela e não ter coragem de me aproximar. Até porque, essa não foi uma escolha minha. Então adotei a conduta e apenas fui adiante. Acontece que essa “história de não olhar pra trás” não funciona na pratica. Porque eu sequer conseguia ir pra frente sem imaginá-la comigo. Eu até tentei frequentar outros bares, ir a outros lugares, degustar outras bocas, focar em outros corpos. Mas desde que ela entrou na minha vida, o que eu conseguia com as demais, era só prazer. O meu conceito sobre “prazeres” abriu um leque de novas definições. Era possível sim, ter tesão, gozar gostoso, curtir o momento, mas eu não sei porque caralhos, faltava algo. Peguei-me pensando...

Talvez o cigarro partilhado depois do êxtase e da explosão dos nossos orgasmos e noites selvagens e despudoradas. Talvez a coca trincando de gelada em contraste dos nossos corpos inflamados e suados. Talvez a música baixa perdendo o tom para as respirações descompassadas. (Ahhh como era incrível ouvir seu coração batendo acelerado e sentir o ar quase não entrar em seus pulmões enquanto ela sussurrava seu “ódio por mim”). Ver suas maçãs avermelhadas e seu cabelo desgrenhado colado de suor no rosto, só não era mais prazeroso que ouvir seus urros e gemidos quando alcançava o orgasmo. Talvez eu sinta falta de coisas das quais nem são perceptíveis no dia a dia dos casais apaixonados. Como ficar admirando seu corpo emaranhado no lençol, ainda impregnado do nosso cheiro. Ou de ouvi-la comentando com um sorriso vadio num tom totalmente angelical sobre as marcas que nem de longe marcavam sua pele como sei que timbrei sua alma (esse contraste donzela/puta dela me alienava o juízo). Porra... É isso! É isso que falta em todas as outras. Detalhes. Minúcias das quais aprendi com ela, fazer toda a diferença. Talvez eu precise parar de garimpar nas outras, ela. Outra coisa que ela sempre enfatizou “não me compare”, e que agora eu tinha plena certeza. Ela não era, não é nada parecida, acho que ela tem razão ao dizer que Deus quando a fez, jogou a forma fora. De fato, ela era única.

Eu parei com algumas coisas, e uma delas foi com um vicio do qual aprendi a apreciar ainda mais depois dela. Eu não fiz isso conscientemente por conta dela, já era um projeto. Aproveitei a mudança e minha tentativa de voltar ao controle e parei de fumar (fiquei por varias vezes imaginando o quão surpresa ela ficaria com essa noticia e o quanto seria complicado pra mim largar esta merda, se estive com ela). Não foi a coisa mais sensata que fiz, afinal, cortar duas dependências de uma vez não é fácil. Pra fazer isso ou precisa ser muito louco ou muito seguro. E entre essas duas coisas, o que sempre fui muito (segundo ela) é maluco. De inicio não foi fácil, assim como me afastar dela, também não foi. Mas quando temos força de vontade (e ajuda) a coisas vai que é uma beleza. Acredito que essa mulher entrou na minha vida pra me mostrar “forças” das quais eu não tinha a menor ideia que possuía. Passei pelos sintomas de abstinência, e curiosamente foram menos danosos do que me afastar dela. Aparentemente eu estava novamente com as rédeas (da minha vida) nas mãos. Não curado, mas no controle. Foi quando o “bip soou” e novamente era ela. Por alguns segundos eu tentei ser racional, queria ignorar e deixar pra lá, continuar como estava. Mas como sempre, tudo que vinha dela fugia as minhas vontades e passavam a sucumbir as dela.

Acabou que falamos sobre coisas que já deveriam estar enterradas, mas por uma razão muito peculiar dela, não estavam. Essa mania dela de arrastar fantasmas me enlouquecia. Eu querendo ir pra frente, mas ela insistia em recuar dois passos sempre que eu dava um na sua direção. (Talvez eu precisasse de um padre, quem sabe exorcizando o que ainda pesa, conseguimos ir adiante mais leves...) As horas foram passando, coisas do passado voltando, novas inquietações submergindo. As emoções adormecidas aflorando, a ansiedade subindo, ela me questionando sobre coisas que eu preferia não responder, eu respondendo coisas que sabia que provavelmente botaria tudo a perder. Droga... eu novamente perdi o discurso entre as perguntas bizarras a assombrosas dela. Do nada ela me pediu pra ler uma carta que havia escrito e assim o fiz, nervoso mas certo de que aquelas apalavras haviam penetrado a muralha de gelo que eu havia ajudado a construir entre nós. Eu tinha outras coisas pra falar, mas naquele momento, tudo se esvaiu. Nunca que consigo falar pra ela, o que ensaio sozinho. Voltamos aquele momento em que há muito a ser dito, mas ninguém fala o que é preciso. Alguns pontos esclarecidos, outros indefinidos, cá estamos nós novamente. Nesse fode e não sai de cima. Eu quero, ela quer ninguém se pronuncia. Nos despedimos sem saber se no outro dia nos falaríamos...

Agora me pego pensando, no porque respondi a mensagem e liguei. Fico puto com as coisas que ela me faz sentir. É como se eu ainda fosse seu dono. Como se ninguém fosse capaz de supri-la como eu a satisfaço, como se ninguém me fosse essencial como necessito estar com ela. Não consigo recuar... Eu simplesmente não tenho forças ou sequer vontade de ignora-la. Quando vi a mensagem eu tinha certeza que retornar seria como “aceitar um trago” com a certeza de que não voltaria a fumar. Impossível, claro. Mas essa maldita mulher era de fato, um vicio oito vezes pior que a nicotina. E pra cura dela, eu de fato não estou preparado ainda.
                                                                         Por. Bell.B      

16 de setembro de 2016

Ela (Abstnência) IV

Voltar pra minha casa naquela noite foi um dos piores momentos da minha vida. Saber que ela não viria correndo ao meu encontro foi realmente terrível. Já havia tido algumas frustrações, desentendimentos, fim de relacionamentos e embora alguns tenham me abalado, nenhum me desestruturou como desta vez. Os pronomes possessivos até alguns dias atrás, eram os meus favoritos. Mas hoje em especial, isso ao invés de me proporcionar prazer estava me deixando mal.

Minha casa, meu sofá, minha cozinha, meu banheiro, minha cama, minha escova de dente. (Maldita hora que fui escovar os dentes) Caralho... Foi justamente quando fui ao lavatório que a coisa ficou seria. Me dei conta de que a escova estava seca. Lembrei-me da nossa primeira conversa mais intima. Ela me fez prometer (embora odiasse promessas) que em nossa casa só haveria uma escova de dente. Eu obviamente concordei, porque a teoria dela sobre “um casal ter escova individual” foi totalmente convincente (e vou te contar uma coisa cara... ela era aquele tipo raro que te fazia comprar limões secos, fazendo acreditar na promessa de que eles dariam a melhor laranjada que você já tomou na vida). Eu estava com a pasta na mão, mas eu não consegui deposita-la na cerda. Me encarando no espelho e racionalmente me vendo como um completo idiota, me peguei degustando a escova. Qualquer pessoa em seu estado normal agiria de duas formas, escovaria o dente ou jogaria a porra da escova de dente no lixo. Mas aquela história de que “a convivência passa costumes e manias” de fato era verídica. Eu havia me contagiado das maluquices dela. Entre tantos TOC’s e compulsões eu tomei pra mim, também algumas de suas bizarrices. (Eu separava as balas azuis das demais, fumava em todo canto da casa, até tomei um porre numa festa uma vez em uma das nossas brigas, coisa que há muito eu não fazia. Comecei a me ver de forma diferente, talvez de tanto ela me dizer como me via, meio que me convenci de que era “tudo aquilo que ela dizia”) Não sei precisar por quanto tempo “beijei” a maldita escova. Recobrando parte de minha lucidez, fiz as demais coisas que tinha a fazer (tudo no modo automático) e me deitei.

Meu celular calculadamente ficava num ponto exato na cama (somente naquele ponto cego havia sinal e eu precisava de sinal) tanto quanto precisava dela. Mas não podia interromper o tempo, embora quisesse muito. Então a rotina começou estranhamente diferente depois de ter confortavelmente me adaptado ao acaso e imprevisto que era (con)viver com ela. Me arrastei feito um zumbi por exatos quatro dias. Trabalho, casa, família, cotidiano. Tudo feito metodicamente até chegar às pausas em que eu deveria estar com ela. E puta que pariu, ai é que fodia tudo, porque nesses “espaços de tempo” literalmente ele parecia não passar. Poderia ser uma hora e meia do almoço ou mesmo os quinze minutos de pausa pro café, porra... Não passava. E eram nesses momentos que a minha cabeça metralhava uma caralhada de coisas. Voltava ao ponto antes dela onde eu tinha controle sobre tudo, no tempo com ela onde não tínhamos domínio sobre nada, e nesse agora onde nada era de fato, porra nenhuma. Eu ensaiava discursos, estudava as respostas das perguntas que sei que ela não fez por estar profundamente magoada mas que deveria ter feito por ser curiosa, eu digitava as mensagens e não enviava, ficava um tempão encarando o numero dela na agenda e me segurando pra não ligar. Fui seguindo, desesperado por noticias e por saber o que do outro lado acontecia. Nada.

Eu sabia dos seus compromissos, dividíamos tudo e algo que era crucial na nossa falta de controle era o controle de nossas agendas. Isso era imprescindível pra que pudéssemos nos aproveitar o máximo possível. Acordei naquele sábado e fiz minhas obrigações. Estava lavando a louça do almoço quando o “bip soou”. Sacudi a cabeça já mentalizando a resposta “não dá!” pra qualquer convite. Fui até a mesa e subitamente todas as minhas “desculpas elaboradas” desapareceram da mente e precisei me sentar. “Me liga agora”. Imediatamente disquei, o coração disparado, dezenas de coisas me passando a mil pela cabeça. Mas respirei fundo porque eu sabia que precisava naquele momento “apenas ouvir”. Foi vinte vezes pior do que no dia em que ela me ligou pela primeira vez. Afinal, esta ligação poderia ser a ultima.

- Oi
* Porque fez isso?
- Eu não sei.
* Não sabe?
(silêncio)
- Onde você esta?
* No salão, hoje tenho um aniversário
- Eu sei.
(silêncio)


A ligação foi interrompida e não consegui retornar. Tentei umas três vezes, mas não consegui, caia direto na caixa. Caralho de desespero. Claro que por estar fora poderia ter acontecido mil coisas, e também estava no salão, o cabeleireiro deve tê-la chamado ou a manicure ou sei lá. Não tentei mais, mas o resto do meu dia foi uma merda. E sei que o dela seria também. Aqueles poucos minutos, as pausas longas que disseram tanta coisa sem serem ditas. Imaginá-la do outro lado da linha, abatida, estraçalhada e lutando pra se recompor foi o que de fato me esmagou. E lá vieram os pensamentos assombrosos e os fantasmas de outrora. Os deixei arrastar as correntes, nada poderia remediar o que aconteceu. Embora eu soubesse que muito poderia ser feito pra recomeçar. Mas tantas outras coisas me impediram de continuar a tentar. Outra vez o tempo começou a passar e a única coisa que me dava acesso direto a ela, eram os (poucos) amigos em comum e os lugares que eu sabia que ela gostava de frequentar.

E depois da longa jornada que percorri até ela, eu voltei ao ponto de partida. É claro que desta vez seria mais complicado. Eu não queria me esconder, mas recuei ao anonimato. Passei a observá-la (mais) de longe. A colher informações e focar no que diretamente estava vendo. Muitas vezes surtei, quis socar paredes e portas, emergiam a raiva, o ciúmes e aquela postura dela de "estou bem" era o que acabava comigo. Filha duma puta, eu sabia que ela estava como eu, mas o mulher do caralho, quando queria esconder o que sentia, o fazia com maestria e se não a conhecesse tão bem, certamente acreditaria. Alguns meses se passaram, e casualmente nos falamos por algumas vezes. Num impulso liguei mas não deixei que ela atendesse, enviei uma mensagem, ela “simpaticamente” respondeu e disse que não teria problema e atenderia mesmo com a casa cheia. Eu no tira-teima liguei outra vez e ela realmente atendeu. Ela poderia não ter equilíbrio, não ser estável, mas uma coisa que ela tinha na mesma proporção da sua falta de controle, era a palavra. Realmente ela estava com visitas e trocamos poucas palavras enquanto eu estava atento às vozes que a cercava. Mais alguns minutos ouvindo-a sem poder dizer tudo que eu queria. Ela precisou desligar, mas eu continuei ali, ligado nela na verdade eu não conseguia me desconectar dessa mulher. Foi a ultima vez que a ouvi. Embora ela tenha tentado descontrair por estar com o pessoal eu a conhecia, seu tom era divertido, ela fez algumas piadas com o pessoal, deu risada (e que saudade daquele riso), mas o tom lá no fundo, ainda era dolorido. Quis ligar outras vezes, mas analisando friamente o timbre daquela ultima ligação, achei melhor me afastar.

Embora tenha decidido ficar longe (considerando a vontade dela) ir ao seu encontro era inevitável, eu poderia estar fazendo qualquer coisa, até estar distraído, mas sempre alguma coisa me levava até ela, uma música nossa, uma música cafona dessas que nós mesmos tirávamos sarro, uma cena de filme, um trecho lido, uma propaganda.  Uma jujuba, um cheiro de café, o suor escorrendo na garrafa gelada de coca cola. A solidão e o vazio. Até isso me remetia a ela. Maldita Mulher. Dona de tudo que eu não sabia que tinha condutora de todos os sentidos que eu havia esquecido que era capaz de sentir. Bela (feia) adormecida que fez despertar as minhas emoções mais intensas. Bruxa do meu conto de fadas não escrito. Eu precisava fazer alguma coisa, precisava trazê-la de volta, então comecei a deixar recados por ai, espalhei por cantos que sabia que ela passaria, bilhetes, cartas, até cantei. Aprendi isso com ela... "quando as palavras faltam ou quando não consigo expressar exatamente o que sinto, eu canto." Espero que dê certo, espero que eu consiga alcança-la e que ela venha acabar com essa fome excessiva, com as minhas noites insones, com essa maldita náusea e tremedeira e que de uma vez por todas, de rumo a minha desorientação emocional. Por que eu não estou mais sabendo lidar com essa abstinência.
                                                                      Por. Bell.B

12 de setembro de 2016

Ela (Ligação) III


O dia corria de vento em poupa. Tinha acordado cedo, ido ao mercado, deixado às coisas do almoço prontas, a casa em ordem e enquanto esperava a maquina acabar de bater a roupa, fumava na varanda (as desvantagens de morar sozinho). Desde que passei o numero pra ela, cada bip de mensagem ou mesmo uma ligação, acelerava meus batimentos. E assim foi por alguns dias, até que a ansiedade cessou e dei o assunto por esquecido. Se não ligou até agora, provavelmente só falaria com ela novamente se fosse ao bar. Estava enterrando a guimba no cinzeiro quando o celular chamou. Continuei sem pressa o que estava fazendo, imaginando ser um amigo ou mesmo um familiar. Talvez um convite pra ir ao clube já que o dia estava favorável, ou mesmo um volta no shopping pra um café. Empurrei o cinzeiro pro canto do beiral, não tinha o costumo de fumar dentro de casa. Caminhei até a mesa pra ver quem chamava. Assim que visualizei “restrito”, senti subitamente o ar faltar. É claro, poderia ser telemarketing, banco ou qualquer uma dessas ligações inconvenientes. Mas não. Eu sabia que era ela. Maldita!  Claro que de cara, não me deixaria saber seu numero. As mãos foram tremulas até o aparelho e tentei controlar a respiração. Não queria parecer ansioso ou nervoso. E também, poderia não ser ela e ai o mico seria fatal. Respirei fundo, atendi... “Oi”.  

A voz veio jovial e moleca do outro lado. Caralho, era ELA! Sequer questionei o numero privado. E tentei parecer descontraído o máximo que pude. Mas como era astuta, ardilosa e sensitiva essa mulher (tirava sarro e usava as minhas emoções contra mim sempre que percebia como eu estava do outro lado da linha). Deus, ela era o demônio. Por algumas horas falamos sobre a família, sobre o que estávamos fazendo naquela tarde. Em alguns momentos nos provocamos, embora eu já estivesse totalmente fora do controle desde o “oi” dela ao atender a ligação. Alguma coisa nela me acelerava inteiro. Me deixava completamente fora de mim. Era como se ela tivesse todo e qualquer controle sobre os meus sentidos. E sobre o tempo, ficamos mais de 4 hrs pendurados naquela ligação. E nem percebemos que o dia já estava virando noite. Ao fundo podia se ouvir alguns ruídos, do meu lado o cachorro maldito da vizinha, crianças na rua, carros e todos aqueles barulhos urbanos. Do lado de lá, vozes ao longe e cantos de pássaros, musica. Ela estava no sitio, cercada de pessoas, e por alguma razão, resolveu me ligar. Também não perguntei por que, sabia que ela não era o tipo de mulher que estudava ou planejava o que fazer, já há conhecia um pouco, sabia que ela era impulsiva então aproveitei outra vez, cada minuto. Se ela pudesse ver a cara de idiota que eu fazia a cada sorriso alto que ela dava, se ela pudesse sentir como meu corpo reagia cada vez que eu percebia seu tom mudar ou sua respiração alterar o ritmo. Ahhh eu estava apaixonado por ela. Completamente apaixonado.

Naquele dia eu tive certeza, eu não estava sozinho naquela relação. Decidimos tentar, porque não!? E foi naquele dia, naquela tarde quase noite, que ela foi literalmente minha. Conectamos nossas almas, nossos sentidos, nossas emoções. Desde então não conseguia deixar de falar com ela um só dia. Fomos nos adaptando, priorizando o tempo um pro outro. Deus, ela passou a acordar na minha cama! Sempre se queixando de estar feia e amassada, cobria o rosto brava quando me via sentado do lado da cama esperando ela despertar toda esculhambada. Por mais que eu dissesse, ela nunca acreditava, mas essa era a coisa que mais me encantava. Aquela cara marrenta e amassada, aquele cabelo emaranhado esparramado no meu travesseiro, era de cair o queixo, vê-la dormir, totalmente vulnerável, liberta de suas amarras e armaduras era fascinante. Linda como ela é. Desarmada. Aquele gênio indomável, aquela mulher fatal e tão cobiçada, agora era minha. Eu saia de casa sem querer sair, recusava os convites sociais só pra passar mais tempo com ela. Me estressava quando por alguma razão não conseguíamos nos ver. Eu respirava aquela mulher, me alimentava dela. Nada antes dela parecia me fazer falta, e agora, eu não conseguia me sentir completo senão com ela.

Eu corria contra o tempo pra conseguir uma brecha, um momento, um minuto com ela. Até nossos conflitos e discussões me faziam bem. Aquela cara retorcida, seu cenho enrugado de nervoso. Eu puto, cerrando os punhos, queria esganá-la, mas puta que pariu. Como aquela fúria me excitava. Nem por um momento eu conseguia odiá-la. Pelo contrario, muitas vezes eu arquitetava uma discussão, calculando que seria boba, pra vê-la nervosinha mas nada com ela era insignificante. E sua mania de tempestuar tudo, conduzia qualquer assunto ao extremo, fosse qual fosse. E isso não era problema, não pra mim. Fazer as pazes com ela, era a melhor parte do meu dia, noite, foda-se. Eu sabia, foi por ela que esperei toda a vida. Mas o tempo é bem cruel quando quer e o destino também, e alguma coisa começou a sair dos trilhos além das nossas emoções e sentimentos arrebatadores. Acabei fazendo algo do qual não tenho orgulho, mas em nome do que vivemos, preferi contar. MALDITA hora que decidi isso. Acreditava que tudo que estávamos vivendo, seria forte o bastante pra superar, pra apagar, pra perdoar o que fiz. Afinal, eu também a perdoei. Mas não foi assim... E eu não sei se por orgulho, por capricho, por raiva, ela me colocou pra fora.

Isso não era novo, toda vez que brigávamos feio ela além de atirar tudo pra cima de mim, me mandava partir. Mas os olhos dela não me convenciam e eu a peitava. Ora e outra a segurava, chacoalhava e berrava que a amava e que nada que ela dissesse me faria partir. Seu rosto avermelhado ia mudando, seus olhos inundados me miravam a alma e tudo acabava bem. Mas desta vez não houve copos e pratos arremessados, o tom veio alto, mas não a ponto de me fazer tampar os ouvidos. Isso me assustou. Muito. Então fiz o que ela pediu quase sem dizer exatamente o que eu deveria fazer. Juntei tudo que tinha e sai, rezando pra que antes que eu batesse a porta ela gritasse, falasse qualquer merda, xingasse, me batesse mas que de alguma maneira, me impedisse de sair. Já estava quase na frente do meu carro quando ouvi a porta bater. Joguei minhas coisas no banco de trás e parti. Vai começar tudo de novo. Peguei a porra do maço no bolso, acendi um cigarro, olhei pro celular e pensei... “quando essa fúria passar, ela vai me ligar”.
Por. Bell.B

22 de agosto de 2016

Ela (Resgate) II

Dois finais de semana se passaram desde o dia que decidiu ter coragem. O dia havia sido puxado, problemas familiares, cansaço emocional, mental. Farto. Precisava literalmente sair, ir para um lugar sem quaisquer chances de trombar um conhecido ou que houvesse qualquer coisa que o remete-se ao caos de onde queria fugir. Estava parado no estacionamento do “pub” há alguns minutos. A neblina de cigarro dentro do carro era tão densa quando a garoa do lado de fora. Fumou uns dois ou três enquanto dedilhava o volante e ouvia música numa estação de hits anos 80/90. Definitivamente não estava a fim de entrar. Queria fugir pra um lugar aonde não precisa socializar, porém ali, inevitavelmente ora ou outra teria que “ou dizer as mais atiradas que estava esperando alguém ou no mínimo acenar e pedir ao barman mais uma dose” ou teria de desocupar o lugar. E embora o ambiente não fosse o que de fato procurava (silencio, calmaria), por alguma razão ele se dirigiu pra lá (jamais assumiria, queria vê-la. Maldita mulher). Quando estava prestes a desistir de se purificar no inferno, a viu pelo retrovisor. Dois minutos depois, entro atrás dela.

Desta vez não sentou, apenas caminhou na direção de onde ela estava. Seu coração batia descompassadamente, mantinha as mãos nos bolsos porque provavelmente elas tremeriam e delatariam seu nervosismo, mentalmente contava até cem e dizia a si mesmo para controlar a respiração, não queria ofegar ou ter sua voz embargada pelo nervosismo. (o tal dia chegará, mesmo atrasado) Passou pela multidão, parou por alguns segundos na frente dela e antes que pudesse usar qualquer uma das frases que ensaiou, aproximou os lábios do seu ouvido e murmurou algo que nem mesmo ele se recorda ao certo o que foi, mas que deu muito certo. Ela afastou delicadamente o rosto e consentiu com um sorriso. Incrédulo mas envaidecido a segurou pela mão e a conduziu para fora. Na porta ela olhou pra ele e quis saber pra onde iriam. (era isso que ele havia sussurrado “vamos pra um lugar mais calmo”) Ele a puxou para o seu carro, abriu a porta e assim que ela entrou, deu a volta. Ali dentro havia um misto de cheiros. Cigarro, perfume masculino, aromatizador. Ela pediu pra que ele baixasse pelo menos um dedo de vidro. Não pelo cheiro, até porque, ela tinha gostos peculiares e este combo de odores era desses. Mas pela sua fantasiosa “claustrofobia”.

Acabou que não foram a lugar algum. E sem perceber, ficaram ali por horas, ele contou a ela que há muito o observava e ela confessou a ele que já sabia. Riram de coisas incomuns, idiotas e compartilharam gostos parecidos, perceberam familiaridades em algumas experiências de vida, desabafaram situações que nem mesmo os mais íntimos sabiam. Houve ali uma sintonia, uma ligação que alguns filósofos diriam ser de outras vidas. O sol timidamente vinha surgindo, o céu estava com tons alaranjados e roxos e só se deram conta do amanhecer quando o faxineiro colocou os sacos pra fora e o dono do bar fechava a porta. Sorriram. Ele puxou o cartão do bolso, ela colocou na bolsa, saiu do carro, deu a volta e debruçou na janela dele. Agradeceu pela companhia e pela noite mais estranha e prazerosa que já havia passado até aquele dia e ele agradeceu por ela tê-lo resgatado (ou se permitido sequestrar). Talvez eles não soubessem, mas naquela noite, tanto ele quanto ela, se resgataram. Combinaram de se encontrar qualquer outro dia. Ele a esperou sair, e embora estive cansado fisicamente, sua mente parecia uma metralhadora voltando cada minuto que passou com ela. Da hora que a viu chegar até este momento. De fato, agora concretamente podia dizer que ela era hipnotizante. Viciante. Era definitivamente como uma dessas drogas sintéticas que criam dependência imediatamente. Queria mais, muito mais. Mas não sabia como teria mais dela. Outra vez seria consumido pelos sintomas de ansiedade. Agora além do bar, das doses, do cigarro, seria a vez do celular. Quando ela iria ligar. Ligaria?
Por. Bell.B

19 de agosto de 2016

Ela (Maldita) I

Nos esbarramos numa dessas noites estranhas. Dessas que você sai pra encher a cara e esquecer dos problemas, do cansaço, do tédio. Maldita hora em que fui afogar as minhas magoas naquele “pub”, maldita hora em que ela passou pela porta e imediatamente me fez refém de seu jeito e trejeitos. Ela era aquele tipo de mulher que vidrava os olhos sem precisar de muito. Havia nela uma áurea que ia na contramão das suas atitudes ali. E eu precisava estudá-la mais um pouco antes de me aproximar ou me fazer enxergar. Então passei a ter aquele lugar, como meu laboratório de estudos. Sempre arrumava uma desculpa para ir aquele bar. Mas nunca assumia a mim mesmo o real motivo. Talvez nem mesmo eu, soubesse ao certo. Então se o dia havia sido chato, pesado, estressante no trabalho, lá estava eu. Se o fim de semana não parecia muito favorável e por sorte ninguém ligava combinando nada, lá estava eu. Com um copo meio cheio (ou meio vazio) curtindo o som ambiente e observando as almas que assim como eu, penavam por ali a procura de relaxar, desestressar, descontrair, talvez arrumar com quem trepar. Sempre a mesma mesa, sempre voltado a mesma direção. De onde estava, podia avistar não só a pista, como o balcão e a porta...

... Maldita porta. Maldita expectativa. Maldita ansiedade. Esta que me fazia consumir doses e doses e divagar sem freios imaginando o momento em que ela adentraria com aquele sorriso estrategicamente contido, com aqueles olhos extremamente compenetrados e astutamente distraídos. Cínica. Ardilosa. Certamente sabia de seus dons e poderes, e cientemente usava isso contra mim, nós. Homens carentes e famintos por afagos na virilidade afrouxada pelos anos e desgastes emocionais. Maldita! Essa palavra passou a ser a minha favorita desde que meus olhos a fitaram. Por não sair da minha mente, por praticamente me hipnotizar, por me atrair como uma presa até aquele lugar, por me render a ponto de não ter como me controlar, esse era o único adjetivo que eu conseguia lhe dar. Foda-se! Ela não sabia mesmo, sequer tinha consciência de que ali dentro, entre mil pessoas, haveria uma (eu), que passou a ser cliente daquele lugar somente por causa dela. Cheguei a pensar certa vez, que ela havia sido colocada ali, propositalmente pelo proprietário.

Hoje dei sorte. Ela veio. Não estava sozinha, alias, nunca estava. E embora muitas pessoas ficassem a seu derredor, seleto era os que de fato a rodeavam. Sempre com um grupo pequeno, onde não importava o sexo, todos os olhos brilhavam ao olhá-la, sua alegria era contagiante. Ao dividir uma bebida, ou partilhar um trago, ou dançando com ela. Sorrisos largos, olhares fixados, que diabo de mulher era aquela? (ainda me faço essa pergunta) Nunca intimamente com ninguém, e intima de todos aqueles que estavam com ela. Comecei a sentir ciúmes, coisa de maluco isso. Ciúmes de alguém que nunca toquei, falei, que sequer sei quem de fato é. E daí? Desde quando se controla sentimentos e se tem as rédeas das emoções? Assim atravessei alguns dias, uns dois meses talvez. A fitando de longe, me incomodando com os mais próximos, com os mais atrevidos que ao mostrarem certa "ousadia" levavam fora, me incomodando comigo mesmo por não me aproximar. Bebia, fumava, observava. Acho que tomei gosto nisso (estava virando um voyeur?). Frequentar bar e chapar tinha virado meu passa tempo favorito. Ainda não conseguia admitir pra mim mesmo que embora estivesse cercado de substancias viciantes, nem o álcool nem o cigarro me faziam tão dependentes quanto ela.

Semana que vem vou dar um basta nisso. Vou mostrar que em mim, que nas minhas vontades quem manda sou eu. E se eu for lá, desta vez vou falar com ela. Juro que vou!   
Por. Bell.B

12 de agosto de 2016

Esquivas

Você vive fugindo de tudo, da intimidade, do carinho, dos domingos, de você e de mim. O que eu quero saber é: por que você ainda não saiu atrás do seu amor de plástico? Eu mesmo te respondo: por que sou o seu Saara. Seu deserto. Você está bem no meio, perdida, em alguma parte central do meu território. E quanto mais você corre, mais interminável ele parece. Você pisa em mim, minha ardência queima seus pés, por isso você corre. Sabe, eu acho um sarro te assistir tonta e desesperada indo para todo lado, sem alcançar lugar algum. Ainda assim, mesmo dentro de mim, você se sente sozinha. Fica procurando mudas de Amor-Perfeito e não lembra que no deserto as flores não germinam. Só os cactos. Tudo que você precisa são cactos, mas deseja flores coloridinhas. Você não dá valor ao que tem, só às coisas idiotas que te dão vontade. E mesmo quando consegue, não interrompe as buscas. Vá se foder!
- Por Gabito Nunes

9 de agosto de 2016

Vá...

 Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua empregada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso. É preciso ir embora. Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”. Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe que não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu País. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião. As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas. E se tiver que ser, e se for pra ser, vai acontecer, vai ser, e ele a fará saber que quase morreu de esperá-la por 4 meses, 4 anos ou pela vida inteira.
                                                        - Por. Antônia Macchi

5 de agosto de 2016

It's Not Over


__ Fica comigo!
— Ficar com você? Por quê? Olha só pra nós, já estamos brigando!
— É o que fazemos. Brigamos. Você fala quando estou sendo desgraçado e arrogante, e eu falo quando você está sendo uma chata irritante. Que é o que você é 99% do tempo. Eu não tenho medo de magoar você. Fica chateada por uns 2 segundos e em seguida volta a fazer a próxima coisa irritante.
— E daí?
— E daí que não vai ser fácil. Vai ser muito difícil. E vamos ter que trabalhar nisso todos os dias. Mas eu quero fazer isso, porque eu quero você. Eu quero você para sempre. Você e eu, todos os dias. Pode me fazer um favor? Por favor. Será que pode imaginar sua vida… Daqui a 30 anos, 40 anos? O que você vê? Se vê com aquele homem, então vá. Vá embora. Perdi você uma vez, acho que posso me acostumar de novo, se for o que você realmente quer. Mas não escolha a saída mais fácil.
- The Notebook

24 de julho de 2016

Sinto Dizer...

Você veio aqui procurando por respostas. Para perguntas que nem sabia que tinha. A princípio, pode até parecer que começou a ler sem buscar nada em especial, além de algum conteúdo interessante, uma ou outra informação relevante, algo que valha a pena agregar. Só que existe muito mais por entre essas linhas e por trás dessa tela. Existem muitas dúvidas no ar, que talvez nunca tenha dividido com ninguém. Dúvidas as quais tem respirado e até se inspirado ao longo dos anos, e que poderiam muito bem te sufocar. Você veio aqui procurando por respostas. Só não sabe disso ainda.
Portanto, sinto lhe dizer que não trago nada além de mais dúvidas, onde muitas você já conhece bem. Na verdade não sinto. O gesto e a menção não passam de mera intenção em poupá-lo do impacto causado pela realidade a qual você insiste em ignorar e a consequente dor que acredita ter superado possam ambos vir à tona. Embora eu deva admitir que a oportunidade de fazê-lo enfrentar seus demônios me pareça tentadora. Se são respostas o que procura, sugiro que pare de ler imediatamente. O meu papel é apenas o de mostrar onde estão suas perguntas. Cabe a você respondê-las satisfatoriamente. Duvido muito que consiga.
Entretanto, para tal, gostaria de iniciar perguntando-lhe porque diabos ainda continua lendo. Nem você mesmo sabe, está se tornando um hábito. Com o perdão das antíteses e psicologias reversas à parte, se dê por avisado.
O quanto desejou nunca ter nascido? Como gostaria de morrer? Se o desejo ainda perdura, o que ainda o mantém aqui? Por que gostaria de assistir ao próprio enterro? Que música tocaria nele? Qual título daria ao filme que seria exibido nos instantes finais de sua vida? Que epitáfio você escolheria? Pelo que gostaria de ser lembrado após sua partida? Se pudesse voltar no tempo, teria mais coisas a corrigir do que mais momentos pra reviver? O que o seu eu anterior está dizendo para o seu eu interior? Por que não consegue explicar quem realmente é nem para si mesmo? Quantas identidades precisaria adotar até finalmente descobrir? De onde vem toda essa sua vontade de largar tudo e sumir? E o que te faz voltar? Do que exatamente acredita que necessita se salvar? Até que ponto o seu prazer em testemunhar a desgraça dos outros chega? Para que lugar o seu orgulho te levou? Onde foram parar as promessas que não cumpriu? Os sonhos que abandonou? Qual foi a maior mentira que você já se contou? Percebeu como se tornou escravo da liberdade que tanto deseja? O que faria com ela depois de conquistá-la? Já notou como o silêncio é ensurdecedor? O quanto depende da aprovação alheia? De como acredita cegamente no amor? O quão influenciável ainda é?
Que perguntas você tem que ninguém nunca conseguiu responder?
O que o segredo revela é a busca. É onde tudo se inicia. É o que nos move, mesmo que seja em direção ao nada. E isso se aplica a tudo. Para cada paradigma deve haver um paradoxo. Quanto mais sabemos, mais tendemos a reconhecer o quanto ainda precisamos aprender. A partir do momento em que deixa de se questionar você morre, antes mesmo de fechar os olhos pela última vez, se é que um dia os abriu. Antes de começar a viver, se é que não já terminou. Antes de conseguir descobrir de onde veio, porque está aqui, para onde vai e quem esse sujeito pensa que é pra falar desse jeito com você. Dentre todas as perguntas, esta última é a que menos importa. Entretanto, me limito a dizer quem eu não sou. Alguém que apenas vomitou verdades prontas. Alguém que o fez aceitar respostas evasivas. Alguém que desconsidera o real valor das perguntas. Olhe ao seu redor, ele está repleto de pessoas assim. Agora olhe para dentro de si.Você é uma delas?
Por. Charmoso Canalha

16 de julho de 2016

Só Mais Um...

Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita comigo que este tempo ande. Lá fora são as casas, vive gente à luz de um candeeiro, o som que nos chega apagado pela distância só denuncia o nosso silêncio interrompido. Ajuda-me, faremos o inventário das coisas menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo. Fica, não te aproximes, nenhum dia é menos sombrio, e quando anoitecer vamos ver as árvores cercando a casa.
                                                                      Por. Helder Moura Pereira

17 de maio de 2016

Inquieta Sombra

Dez dias haviam se passado desde seu ultimo porre emocional. Bem que dizem que o inferno astral piora quando se esta próximo de completar anos. E isso não seria diferente pra ela. Na verdade, isso era muito comum, estranho era quando tudo estava no lugar, encaixado, simétrico. Por fim, seguia com suas chagas incuráveis e suas dores latentes dia pós dia. De calejada, a única coisa que de fato lhe pesava, eram as batidas de seu coração. E talvez por habito ou por puro auto sadismo. Ora e outra se esticava no tapete, de luz apagada com um cigarro meia vida entre os dedos e se desligava do mundo para ouvir o ranger em seu peito. Louca? Masoquista? Quem saberia explicar com exatidão o que acontecia com aquele coração sofrido, se nem mesmo ela era capaz de compreender o porque, dele lhe proporcionar tantos desafios.

Aquela madrugada estava estranha, chovia fino, tudo estava descolorido, ela havia discutido outra e mais uma vez com ele, alias, estavam discutindo a semanas. As coisas não estavam e aparentemente não ficariam bem entre eles. E qualquer música, texto, filme poderia arruinar definitivamente seu dia (maldito lado dominador emocional, esse que ela tinha). O que não estava muito longe de acontecer já que quando se encontrava assim, tudo parecia ser capaz de faze-la ruir, suas emoções faziam sua fragilidade emergir e com isso, ela ficava completamente indefesa, vulnerável. e este era um estado que realmente a deixava assustada. Então como era de se esperar, optou por se proteger em sua concha. Não fazia isso por escolha, com decisão, na verdade, nem mesmo ela tinha controle sobre esses estágios inertes e reclusos em si mesma. Quando suas emoções estavam abaladas automaticamente ela entrava num estagio encapsulado, como se o silencio fosse o antídoto contra todo aquele medo, desespero, sofrimento. Autodefesa. Era um processo complicado, delicado, lento... Calar, se encolher, sentir até parar de doer.

Vagava pelos cômodos, sempre com uma xícara de café e um cigarro nas mãos. Vez por outra, olhava pela fresta da cortina. Dali, não podia ver toda a extensão da rua, mas  avistava parte da esquina. Olhou muitas vezes naquela direção. Mesmo tomada de rancor, de decepção, de magoas, ainda brotava nela, por trás da raiva, esperança. E além disso, também seu senso de justiça. Era o certo a fazer. Seria. Se fosse ela, se ela tivesse feito o que ele fez, ela teria ido, ela iria. Mostraria seu arrependimento nu e cru pra quem quisesse ver, saber. Assumiria sua culpa e não justificaria, mas recomeçaria do zero, deixando mais que claro que errar é humano e reconhecer que errou, é ainda mais. Mas... Não foi o caso. Entre goles e tragos, o dia passou, e passou de tal forma que sequer foi capaz de contar as horas em que se perdeu entre a fresta, o tempo e seus pensamentos, que ora queimavam noutras latejavam rompendo de tristeza em seus olhos. A única coisa que conseguiu pensar com discernimento, foi que há muito tempo não se sentia daquele jeito. E por mágica, milagre ou sintonia, aquela sensação a levou a um outro sentimento. Sentiu seu coração subitamente acelerar e o ar desta vez não entrou em seus pulmões junto ao trago. Um som familiar lhe puxou de volta.

Rapidamente se sentou e encolheu as pernas sobre o sofá. Puxou o ar, mas outra vez ele não entrou. Lentamente foi se virando e de joelhos sobre o sofá, com a pontinha dos dedos puxou a cortina. Misteriosamente o céu estava estrelado, ia se perguntar como, pois o dia passou pesado, nublado, cinza (exatamente como ela). Mas antes de formular suas perguntas ao Divino, um raio de luz a fez enxergar uma silhueta. Não era nítida, não era a esperada, mas a familiaridade daquela inquieta sombra, coçou muito levemente seus lábios. Soltou a cortina, recuou ainda mais lentamente de perto da janela e agora seu coração estranhamente parecia que iria saltar pela boca. Estática por alguns segundo ou minutos, não soube precisar exatamente o período do transe, viu um filme passar pela sua cabeça, coisas das quais fez questão de esquecer, outras que de alguma maneira, se proibiu de lembrar, uma avalanche. Estava soterrada de memórias e de perguntas e de coisas que naquele momento não foi capaz de nomear.

Involuntariamente foi caminhando até o lado de fora, a não mais que dez passos do portão pode então ter certeza de quem era a sombra que embora parecesse inerte se mostrava tão inquieta por dentro quanto congelada ali fora. Ela quis correr, quis gritar, quis perguntar o que ele fazia ali, queria saber por quanto tempo e porque, mas nada do que tentou dizer entre ele e os dez passos saiu através de seus lábios. Abriu o portão, nem percebeu que estava apenas de camiseta e pés no chão. Nem mesmo sentiu frio, e quando o destrancou, ela firmou suas retinas nele. Ainda parado, sem dizer ou fazer qualquer movimento. E embora estivesse estilhaçada por dentro e acreditando que nada mais poderia arrumar aquele caos instalado em seu peito, a presença dele a fez sentir uma confortável sensação de paz e euforia. Vê-lo naquele momento (triste, cinza, pesado) foi como ver o arco-íris após um temporal. Esticou a mão sem nada dizer, não era preciso. Não entre eles. Contudo, ainda havia aquela coisa que nunca ninguém, nem mesmo eles saberiam explicar. Uma ligação, uma conexão, uma linha tênue poderosamente imaginária e misteriosamente real, da qual tempo, distancia, brigas, homens, garotas, paixões, jamais os desconectaria. Ela ia além, muito além de tons, tecnologias, física.

A mão gélida e tremula dele agarrou-se a dela. Nesse mesmo instante o sorriso dela estendeu-se serenamente. E ela sussurrou o convite já sabendo a resposta quando o viu franzir de cenho... "Entre, acabei de passar um café".                                                     
Por. Bell.B

7 de maio de 2016

Cristal



E como era de se esperar, tudo voltou a descolorir. Embora frustrante, nada naquela situação toda, era novidade. Talvez por ela já estar acostumada há de uma hora pra outra, se deparar com a mistura homogênea da paleta que transformava tudo num único tom. (ou na ausência delas) Carma? Castigo? Destino? Chega! Não mais queria saber sobre isso. Todas as suas tentativas acabavam sempre da mesma forma (disforme).

Essa caminhada era sempre longa demais, e sempre acabava da mesma forma (círculos). A merda nisso tudo era que mesmo tendo o dom de prever a desgraça, acabava sempre indo até o final, onde a navalha, meticulosamente lhe cortava os pulsos. De duas, uma. Ou era muito idiota ou muito masoquista. Mas no seu ponto de vista particular, não era nem uma coisa nem outra. Era mesmo crente. Guerreira. Acreditava sempre que embora a vida inteira dissesse que os contos de fadas não existissem e que seu sonho sempre fora encontrar alguém completamente inverso aos príncipes da Disney, no fundo, bem lá dentro, era somente isso que não só queria como precisava, ser a Donzela da masmorra que o Herói salva .

Porém, essa ultima experiência definitivamente a fez ruir.  Seu castelo de cartas se ergueu sobre areias movediças. E como esperar que desta vez fosse dar certo? Porque acreditar que ele seria diferente, quando tudo indicava que seria exatamente igual? Padrões, pesquisas, experiências, seu “desconfiometro”. Porque diabos insistiu em dar oportunidade, chance? Dezenas de perguntas a levavam as mesmas respostas de sempre. E essas respostas a faziam sentir pior, muito pior que às vezes anteriores. Outra vez ela estava aos cacos, espalhada no centro do tapete da sala, com o olhar mirado para o teto com sua playlist suicida tocando repetidamente e sentindo o ódio voltar a aquecer seu coração (calejado, cansado, fraco).

Passou a madrugada assim. Entre a pausa de uma música e outra cerrava os punhos, mordia o lábio inferior e desta vez, não se perguntava, ordenava. “Seja forte, volte, recomponha-se”. Sentiu lá no fundo que conseguiria, mas ainda não estava pronta pra se por de pé. Precisava de mais tempo. Precisava deixar aquilo doer, pulsar, lhe queimar por dentro (talvez esperasse que ele aparecesse, ligasse, implorasse perdão, talvez no fundo de todo aquele ódio, ainda houvesse esperança. Ela odiava talvez, odiava espera, se odiava por pensar ou querer pensar que pudesse haver uma maneira de tudo isso se consertar. Uma vez lhe disseram que "uma vez um cristal partido, nunca mais ele seria inteiro". Ela estava em estilhaços, espalhados e sem ninguém além dela, pra juntar os pedaços). Queria inflamar e sentir tudo literalmente incendiar junto com as roupas, e livros e discos e toda a quinquilharia que ficou pra trás quando a porta bateu. Decidiu (outra e de novo e mais uma vez) que ela não havia nascido para o amor. Entendeu que não importam os cortes de cabelo, o formato das barbas, o perfume ou mesmo a classificação na sociedade. Todos são exatamente iguais. Todos pensam de uma única forma e pra ela, isso era demais.

Silhuetas, temperaturas, comprimento do cabelo, cheiros... Pra vocês, a única coisa que difere é tempo, disponibilidade, oportunidade, CHANCE. Se puderem, se conseguirem, não são capazes discernir uma trepada de uma noite de várias outras noites de amor. Não conseguem resistir a tentação, a ereção, ao tesão. Pra mim... O cuidado, o respeito, a parceria, fazem toda a diferença e é o que te levará a viver e conviver com alguém por uma vida inteira. Infelizmente pra você, o que foi considerado foi uma boceta. Volto a repetir. Espero que tenha valido a pena. 

Se levantou, acendeu um cigarro e colocou a água pra ferver, precisa de um café. Enquanto a água fervia, seus pensamentos borbulhavam. Seus olhos se aprofundavam no vazio frio através da janela... Estava de volta. Ela, o tom cinza, seus devaneios, desejos, sonhos e a vontade louca de ser encontrada enquanto seus olhos se perdiam.
Por. Bell.B