7 de junho de 2017

Nunca Seremos



Me olha mas não me ultrapassa, rejeita mas não me delimita à tua recusa.
Não se compreende em tuas mentiras e me beija como se a tua saliva quisesse amarrar pra sempre as minhas pernas. Cantos tão sombrios que insisto percorrer contigo em deboche pelas madrugadas… Vem, dá-me a tua mão, arranca do meu peito essas tuas raízes rastejantes, mergulha tua língua amordaçada ao gosto amargo de outros homens em minha língua, alimenta essa vontade de te morrer em mim… Como é possível brotar em vida se em cada gota umedeces com teu líquido porco essas minhas sementes carunchadas, retraídas na casca mentirosa de um casulo de osso?

Eu não floresço sufocado em tanta água. Não era possível que tu não me amasse como se ama uma queda? Que me quisesse como o deserto anseia por ventos amenos? Você me ajuda a construir armadilhas nas quais cairemos juntos. Era preciso tanto que você me amasse por aquilo que escrevi. Era preciso que demorasse os olhos nos meus abismos. Não que me jogasse lá de cima, sobre teus barrancos escorregadios, altíssimos demais pra minhas vontades de escalada. Não percebes que as coisas entre nós foram ficando cada vez mais assoberbadas por uma violência contida?

Como eu poderia ser salvo ou te salvar se, em cada beijo, me sentia com uma mão limpando teu vômito e com a outra te ajudando me afogar a cara na privada? Sinto por ti vontades tão violentas como se me fossem ​ arrancados os olhos, sabendo que me era negado a vista, eu sempre sentiria falta daquilo que deveria ser meu. Serei sempre uma velha cega tateando tua vida no escuro com minhas fracas tentativas receosas de tropeço. Colecionamos tantos fracassos que nos foram impostos que mal conseguimos nos movimentar em fracasso próprio.

Mas ainda assim me olhas, com teus olhos arregalados, rejeitados​ por uma infância de concreto a cerca-lhe em horizontes promíscuos. Como se me dissessem que poderíamos sim, ser todo o fracasso de quem prefere as aparências da carne, de quem se faz vítima aos próprios pecados, às misérias mágicas a salvar-te de ti. Lugares intocados que meus dedos receosos agora tocam sem o menor interesse por tuas palavras que se mentem sóbrias para tuas terras lamacentas demais… Sufocantes demais… Movediças demais… Não amar você foi o jeito que encontrei de me violentar menos nesse jogo de ruínas. Uma necessidade tão grande de fazer de nós uma poesia não contida em cada bago de frase, em cada soco de linha… Mas não adianta vazar primavera pelos poros das palavras se de nossas artérias entrecortadas apenas jorram barrentos sentimentos de culpa pelo o que não fomos, pelo o que, assustados, não seremos. Não seremos…
                                                              - Por. Michael Letto