14 de abril de 2016

Acabou?



Acabou o açúcar. Acabou a luz. Acabou a falta. Acabou de descer, senhor. Acabou de aceitar o convite pro jantar. Acabou de deixar um pacote na portaria e pediu pra dar um pulo no apartamento dela.  Acabou de tomar o café e já saiu correndo pro trabalho. Acabou de mostrar que a calcinha é menor que o bumbum e deu até pra ver o sinal de nascença dela do lado esquerdo. Acabou de me dar um beijo no pescoço e deixar uma marquinha inocente de batom cor laranja. Acabou de passar por aqui e disse que vocês iam conhecer os pais dela hoje. Acabou o frio e o espaço pra mais um na cama.

Acabou com o açúcar da dispensa e nem me disse nada pra comprar mais. Acabou de acordar e perdeu a hora da sessão. Acabou de começar o filme, vai querer entrar mesmo assim? Acabou de passar no jornal que a maioria dos casais passa a se suportar menos quando percebe que as diferenças entre eles pode ser assustadora, ainda mais quando não estão a fim de abrir mão de serem só seus pra emprestar versões melhores de si a quem amam. Acabou que a gente sempre achou besteira essa coisa de solidão a dois que o Cazuza falava. Acabou com os quadros da sala e com as paredes do meu quarto porque disse que eram feios demais e o meu gosto pra arte não era refinado. Acabou que se atrasou mais uma vez e nem me ligou pra pedir desculpas, cara. Acabou a chuva, e nem assim eu senti vontade de sair de casa para vê-la. Acabou a discussão só porque você acha que tem razão? Acabou a pretensão. Acabou a saudade e o ciuminho bobo. Acabou o charme e tudo ficou quieto demais.

Acabou sem açúcar. Acabou que era melhor ter tomado café na padaria da esquina porque a cafeteira tava quebrada igual a gente. Acabou de descer, doutor. Acabou de trocar a fechadura da porta e parece que deixou uma mala pro senhor aí embaixo. Acabou que eu cortei o cabelo, fiz a barba, comprei umas roupas novas e mudei de emprego. Acabou tudo em comum e o que era incomum ficou medíocre. Acabou que não era pra ser, cara, mas eu tô bem. Acabou o frio na barriga e dois num edredom era demais pra um só. Acabou a gente.
Por. Daniel Bovolento

13 de abril de 2016

Gosto Amargo.

A você, provavelmente não sei...

... Mas os fantasmas de um passado inteiro espreitam além do copo de uísque. E eu, sinceramente, não sei se eu termino o copo e os enfrento ou rejeito mais uma dose e os temo apenas em sonhos. Há, na realidade, uma doce ironia que apenas um Deus cruel, ou uma deidade forjada no vazio que a humanidade atribuiu causalidade, que só se pode ser verdadeiramente apreciada após um estágio profundo de compreensão do que é o sofrimento intrínseco da humanidade.

Não sei se dou Deus ou vazio.
Mas, agora, não sou nada além de uísque.
Por. Insanidade Consentida