27 de fevereiro de 2016

Trague...


Ao mal que chega todas as noites aos pés da minha cama para me sussurrar palavras de afeto, aos demônios que me provocam e me seduzem, para eles eu deixo meu sangue colorido, que fora tingido com as cores dos meus sonhos estragados. A cor rubra quase enegrecida revela sem nenhuma palavra todos os desalentos de uma vida desperdiçada, e ainda que inútil para se transfundir a um vagabundo, sempre irá possuir o cheiro e o gosto de um doce vinho tinto. Dedico e ofereço ao meu coração morto o pouco de vida que sobrou de uma fotografia tirada numa época onde a brisa que soprava meus cabelos traziam o frescor de campos de lavanda, e hoje devem estar alagados em pantanais, afogado por musgos, servindo de cenários de filmes de ficção científica. Naquela foto o momento de felicidade capturado eternizou o que um dia poderia ser dito como sorriso em meu rosto e hoje nem mais o espelho trincado do meu banheiro se lembra como é o desenho.

 Irei deixar à minh’alma que não mais me habita tudo o que já não sinto mais. É com ela que irão ficar todas as borboletas que habitavam meu interior, que batiam asas e me faziam tirar os pés do chão, inflar os pulmões e gozar da vida, é com ela que irão ficar todas as leves tremedeiras das mãos de um corpo febril e satisfeito, a respiração ofegante e o calor que invadia as entranhas e explodia sobre o peito e o íntimo. É para ela que entrego o significado de tudo o que eu sempre busquei e perdi. Provei do paraíso graças à ela por poucos minutos e em seguida tudo de mim foi tirado, num gesto calculado de puro sadismo.
 Para quem não está mais ao meu lado eu deixo todas as lembranças. Deixo todas as cenas de amor e cumplicidade, todo o mel derramado por meus lábios, todos os olhares cálidos e preocupados. Deixo meus suspiros e carinhos nas noites de tormenta, nos momentos vazios onde meu ser é quem os preenchia. Deixo também as lágrimas quentes e úmidas que rolavam por minhas bochechas coradas a cada vez que partiam e me deixavam outra vez à solidão. 
 Agora que de mim nada sobra, nada resta, nada presta irei me acolher nos braços frios e sem aconchego da solidão, da noite fria e anônima, pois ali sei que sempre terei companhia, cada ciclo de Lua irei contar as mesmas histórias desbotadas e sem verdade, pois a veracidade não os importam, quem dirá a mim… Meus olhos fundos, a boca seca, o corpo gasto, a falta do tato, paladar e olfato serão de quem nunca irá me querer. Sou posse dos desafortunados, sou triunfo dos perdedores, sou a graça dos desgraçados, sou o que ninguém jamais pediu. E quem ainda quiser trazer a centelha e reavivar a chama trago um riso sem humor e um menear da minha cabeça, onde com tais gestos com a esperança dos que vão a guerra direi : "Este não é o seu caminho, mas já que veio, trague um pouco do meu vinho."
Por. Letícia M