28 de julho de 2017

Tudo é Reação




E sequer um cigarro aceso no mundo queima em vão. Nenhuma mão se movimenta voluntariamente para acendê-lo, se não para espantar o indesejável.

Garrafas vazias são sempre cheias de causas e consequências de causas. Todos os cortes retilíneos deixam escorrer a alma. Ou vice versa. Um quilo a mais nunca é só um quilo a mais. Um a menos também não. O stress não é repentino e a apatia tem um passado. Tudo é reação.

Um sonho interrompido é uma lembrança distante, como a de quando planejávamos dominar o mundo com o pessoal da terceira série; é uma saudade profunda daquilo que jamais se viveu. Palavras não são só palavras quando escritas no papel do ser que se é. Mas e quando não é ou não se conhece ainda? Ser o que? Ser mais, é o plano de todos para o futuro. Mas, pasme, o futuro não existe, ele é apenas uma imaginação abstrata e borrada numa moldura trincada. Trincada. Trincada. Um eco que faz repetir o medo de não conseguir alcançá-lo. Um choro ou um riso não são fundos fotográficos, penso e creio e defendo e bato o pé que são os extremos da alma querendo se expor. E tudo é questão de passado, e tudo é baseado nele, tudo que é, um dia, já foi e se fez ser. Meu Deus, que confuso. É puro caos, as pessoas.

Somos tudo o que não sabemos expor mas tentamos, em prol de um encaixe perfeito. A vida é feita para acabar e de nada adianta a renúncia e a bússola, o que não tem fim é o tempo, e só – e o que fica pairado sob as estrelas, enquanto um único olhar mira para cima de sua cabeça, após o fim que antecede o seu. Vai saber se questionando o invisível, aprende-se o que sempre se passou despercebido…

... Mas, independente de todo o incomensurável (roubo a frase de Lispector): A vida come a vida. Então, de repente, cantiga de ninar e brisa fria sopra o para sempre.
   É como eu sempre digo, desde que observei: Viver é um suicídio
- Joyce Lima

14 de julho de 2017

Estragou Tudo

Depois do sexo, olhei pra cara dele como despedida. Vou sentir sua falta, pensei. Coloquei a roupa sem muita vontade e, quando vi, já estava dentro do elevador. As pernas doíam, a cabeça acelerava e, claro, mal conseguia andar de tão assada. Sempre foi foda, sempre foi gostoso, sempre foi tudo de bom. A diferença? Ele virou-se e disse "te amo". Não como amigo. E isso era foda. O amor desbota qualquer amizade colorida. Estraga qualquer lance legal que você tenha com alguém. Com ele era incrível. Gozava feito louca. Puta que pariu. Mas não deu mais liga. Não depois dessa confissão. Da confusão. O PA perfeito se apaixonou. Jesus. Não sei o que é mais azar. E parece até que ouço Caetano dizer "toda razão, toda palavra, vale nada quando chega o amor". Eu não podia correr o risco de brincar. Melhor manter a amizade cinza que deixar ele colorir demais a coisa. Inventei uma desculpa estranha e saí. Triste, mas pelo menos saciada. Não tô podendo correr o risco de me envolver tanto assim. Valeu, foi bom, adeus.
 - Desconheço Autoria 

Paradoxo

Você sempre foi o que eu tive de mais secreto em mim. Aquela lágrima de saudade que ninguém nunca descobriu, aquele impulso pra ir em frente que ninguém nunca entendeu. E assim, mesmo de tão longe, você consegue estar tão aqui. Tão dentro de mim, tão nas entrelinhas do que eu vivo, tão nas noites que eu não durmo.

Eu te amo tanto, que eu mantenho a distância segura que nos separa e te dá paz. Amo tanto, que já me acostumei com a ideia de que estar longe te faz bem e sofro sozinha com todo esse amor espremendo meu peito contra uma realidade fria e sem graça, longe do teu calor e do teu sorriso.

O meu amor é instável a ponto de sumir quando eu vejo Closer, mas é intenso a ponto de não acreditar que o amor como eu sonhei é só um sonho. Meu amor é tão burro, tão imbecil, que ele acredita que agora pode dar certo, que agora seremos felizes, que agora tudo na minha vida vai mudar. O meu amor é teu, tão teu que não se importa com a felicidade do teu sorriso longe, desde que ele se mantenha sorriso.

O meu amor é uma mistura de passado e futuro. É uma falta de presente que angustia e amedronta, mas anestesia. E eu vivo inerte sentindo tanto (tanto) amor, que eu viro pro lado, coloco a mão na minha cintura como você fazia, imagino seu rosto e durmo. E isso basta. Meu amor é tão humilde, tão singelo, que ele continua sendo amor só por saber que você existiu um dia. Ele não quer a sua presença, não exige seu carinho, não lamenta pela sua perda.

O meu amor é a fé que eu deposito todos os dias em alguma coisa que possa tirar todo esse peso e essa dor de mim. É aquele sentimento de crença meio burro, que faz de mim uma metade de online casino amor. Meu amor é aquele que um dia fez de você o primeiro, que te transformou em último e que me fez parar de acreditar. E eu parei, porque eu te amava tanto, que eu não sabia o que fazer com esse amor e acabava te odiando.

Meu amor me dá tanto medo, que eu te rebaixo. Eu fico tentando pensar nos defeitos que você tinha, naquele dia que você não foi atrás de mim e eu olhei pra trás a cada passo que eu dei. Eu tranco a porta do quarto, ouço Damien Rice no último volume e choro. Choro porque nós ouvíamos Damien Rice e porque eu imagino que quando a música acabar e as minhas lágrimas secarem um pouco de todo esse amor vai embora. Os meus olhos incham, meu amor também e ele nunca vai.

Meu amor é o que me faz sentir uma sede que nem mil litros de água abrandariam, é o que me faz perder o apetite de comida porque a minha fome de amor é ainda maior. Meu amor é a grande quantidade de vírgulas nos meus textos, porque a tua objetividade me dá calafrios. É a lembrança da vista da sua janela e da sua visão do mundo, é uma saudade doída da sua ajuda para fazer cálculos e para tomar decisões. O meu amor é a própria falta de decisão.

Meu amor é a possessão incrível que me faz manter tanto amor em silêncio. É o absoluto egoísmo e a mais extrema doação. Eu tenho tanto medo de perder o meu amor, que eu já não consigo respirar direito por medo de sufocar um pouco que seja desse sentimento. Meu amor é invisível, é particular. Não consigo dar nem um pouco dele a qualquer um, porque ele é só teu. Mas eu também não quero dar ele a você, porque nem você saberia o que fazer com tanto.

Meu amor é a vontade de gritar no seu ouvido que eu existo, é a vontade de abrir a caixa vermelha com as suas lembranças, é a vontade de te ligar e te propor uma fuga. O meu amor é o medo que eu tenho de acordar, e a vontade que eu tenho de acordar pra ver se você me vê. O meu amor é o meu paradoxo, é a minha música, é a minha poesia.

O meu amor é o que eu sinto de mais forte, é o que eu tenho de mais verdadeiro. Meu amor é aquele que eu escondo, que eu fujo, que eu desencontro. É aquele que me sufoca tanto que eu perco o medo, a vergonha, a compulsão. É aquele que me faz perder o rumo e que me faz voltar sempre pra você. É aquele que não deveria ser escrito nunca, mas que não consegue mais calar. É aquele que morre e renasce todos os dias, cada vez mais forte, cada vez mais meu. Cada vez mais teu amor.
- Por Mariana Melz

7 de junho de 2017

Nunca Seremos



Me olha mas não me ultrapassa, rejeita mas não me delimita à tua recusa.
Não se compreende em tuas mentiras e me beija como se a tua saliva quisesse amarrar pra sempre as minhas pernas. Cantos tão sombrios que insisto percorrer contigo em deboche pelas madrugadas… Vem, dá-me a tua mão, arranca do meu peito essas tuas raízes rastejantes, mergulha tua língua amordaçada ao gosto amargo de outros homens em minha língua, alimenta essa vontade de te morrer em mim… Como é possível brotar em vida se em cada gota umedeces com teu líquido porco essas minhas sementes carunchadas, retraídas na casca mentirosa de um casulo de osso?

Eu não floresço sufocado em tanta água. Não era possível que tu não me amasse como se ama uma queda? Que me quisesse como o deserto anseia por ventos amenos? Você me ajuda a construir armadilhas nas quais cairemos juntos. Era preciso tanto que você me amasse por aquilo que escrevi. Era preciso que demorasse os olhos nos meus abismos. Não que me jogasse lá de cima, sobre teus barrancos escorregadios, altíssimos demais pra minhas vontades de escalada. Não percebes que as coisas entre nós foram ficando cada vez mais assoberbadas por uma violência contida?

Como eu poderia ser salvo ou te salvar se, em cada beijo, me sentia com uma mão limpando teu vômito e com a outra te ajudando me afogar a cara na privada? Sinto por ti vontades tão violentas como se me fossem ​ arrancados os olhos, sabendo que me era negado a vista, eu sempre sentiria falta daquilo que deveria ser meu. Serei sempre uma velha cega tateando tua vida no escuro com minhas fracas tentativas receosas de tropeço. Colecionamos tantos fracassos que nos foram impostos que mal conseguimos nos movimentar em fracasso próprio.

Mas ainda assim me olhas, com teus olhos arregalados, rejeitados​ por uma infância de concreto a cerca-lhe em horizontes promíscuos. Como se me dissessem que poderíamos sim, ser todo o fracasso de quem prefere as aparências da carne, de quem se faz vítima aos próprios pecados, às misérias mágicas a salvar-te de ti. Lugares intocados que meus dedos receosos agora tocam sem o menor interesse por tuas palavras que se mentem sóbrias para tuas terras lamacentas demais… Sufocantes demais… Movediças demais… Não amar você foi o jeito que encontrei de me violentar menos nesse jogo de ruínas. Uma necessidade tão grande de fazer de nós uma poesia não contida em cada bago de frase, em cada soco de linha… Mas não adianta vazar primavera pelos poros das palavras se de nossas artérias entrecortadas apenas jorram barrentos sentimentos de culpa pelo o que não fomos, pelo o que, assustados, não seremos. Não seremos…
                                                              - Por. Michael Letto

28 de fevereiro de 2017

Só Te Comer


Há umas horas você perguntou se o que eu queria com você era só sexo. Mas que pergunta idiota. O que mais poderia ser? Com esse corpo, sem frescuras, com a sua experiência de vida, o que mais eu iria querer com você? Ora bolas, como diriam os antigos, mas que perguntinha. Por que você acha nós trocamos, só hoje, (eu contei, não precisa conferir) mil duzentas e quarenta e sete mensagens no celular? Pra que você acha que eu sou gentil, fofo, engraçado e solícito com você? Pra te comer, pra que mais? Por que eu passo horas pensando em você, fico esfuziante quando você me manda mensagem e quase explodo de alegria quando você me conta que falou de mim pros seus amigos? Porque eu só quero te comer, deveria ser óbvio.
Por que diabos eu ficaria em um dia duas horas e cinquenta e dois minutos e no outro duas horas e vinte e cinco minutos ao telefone com você? Um homem faz tudo por sexo. Vai dizer que nem imagina por que eu fico tão feliz quando descubro que temos absolutamente os mesmos gostos para filmes e lugares para viajar, por exemplo? Santa ingenuidade, Batman. Por que mais, Deus, eu ficaria imaginando nós dois em uma pousada romântica em algum lugar paradisíaco, isolada de tudo, sem telefone, durante vários dias? Pra te comer, não teria outra razão.

Eu não tenho nenhum motivo para cogitar te levar à praia – que eu detesto – quando você vier me visitar a não ser querer sexo com você. Muito menos eu tenho alguma razão para me preocupar se você vai reclamar da bagunça da minha casa, do pelo dos gatos ou do fato de eu só usar camiseta de desenho animado ou com frases engraçadinhas. Quer dizer, tenho um motivo: comer você. Não se engane, tudo o que eu faço é pra te comer. Me preocupo com o que seus amigos e sua família pensariam de mim, tento ser menos ansioso e menos desesperado, passo horas inventando um compromisso na sua cidade só pra ter a desculpa de “caramba, tô pertinho de você, vamos tomar um café?”. Faço tudo isso com o único e certeiro objetivo de te comer. E quando eu penso se você preferiria morar na praia ou na serra? Ou quando imagino se você gostaria de ter um pitbull que nem eu? E quando meu coração acelera de ver “digitando” no celular enquanto você me escreve uma mensagem? Tudo pra te comer, só sexo. Não se deixe enganar pela minha fofura e meu pretenso romantismo. É tudo pra ganhar as garotas. No fundo eu só quero te comer. Quando eu imagino nós dois fazendo uma viagem romântica para a Europa – e automaticamente ignoro o meu enorme cagaço de avião – tudo o que eu quero é te levar pra lá pra te comer na Europa. Só, mais nada. Curto e grosso. E quando eu penso que nos daríamos super bem se morássemos perto, ou até se morássemos juntos? Jesus, só me passa pela cabeça comer você. Já disse, não se deixe enganar. Eu engano bem. Vai por mim. Aliás, uma chance: por que você acha que eu estou escrevendo esse texto?
                                                                - Por. Léo Luz

25 de janeiro de 2017

Addicted

Só tire o cigarro da minha boca se for para beijar-me. Só tire um vício de mim se for para me dar quaisquer outro no lugar. Só tire de mim o passado, se for me dar um presente que preste e um futuro que eu não vá me arrepender. Só tire de mim a bebida, se no lugar você me der uma desculpa plausível para me manter sóbrio nesse mundo filho da puta. Só me tire do chão, se for para me levar ao céu com apenas passagem de ida. Só me faça acreditar em suas promessas, se você for cumprir uma a uma. Só me diz que vai ficar, se você realmente for ficar. Caso contrário, meu bem, me deixe tragar, me deixe viciar, em um ser inanimado do qual não me deixará se eu não deixar, do qual posso confiar sem me arrepender e, por último, mas não menos importante: Se for pra foder, que seja na minha cama ou na sua, no chão, no banheiro, no sofá, na rua, no carro ou onde mais o prazer estiver, mas que não foda a minha vida. Grato.
                                                             - Desconheço Autoria